ONU News Perspectiva Global Reportagens Humanas ONU News Perspectiva Global Reportagens Humanas Pesquisar "Sejam vocês próprias", diz uma das pioneiras da diplomacia em Portugal Arquivo pessoal A ONU News conversou com a embaixadora Ana Martinho sobre o Dia Internacional da Mulher na Diplomacia e seus conselhos para aspirantes a diplomatas.

Facebook Twitter Imprimir Email "Sejam vocês próprias", diz uma das pioneiras da diplomacia em Portugal Por Sara de Melo Rocha* 24 Junho 2026 Mulheres Ana Martinho foi uma das primeiras mulheres a entrar para a carreira no país europeu após a Revolução dos Cravos; A ONU News conversou com a embaixadora sobre o Dia Internacional das Mulheres na Diplomacia e a receita que ela tem para as aspirantes ao posto. A portuguesa Ana Martinho licenciou-se em Direito em 1970.

Começou por exercer advocacia, até porque a carreira diplomática não estava disponível para as mulheres em Portugal, devido a um artigo na lei em que apenas "os cidadãos portugueses originários do sexo masculino" podiam aceder ao serviço diplomático. A mudança chega com a Revolução de Abril. Em 1974, o I Governo Provisório anuncia a abertura da carreira às mulheres classificando-a como "uma medida de justiça e equidade, praticada na generalidade dos países" e a referência ao sexo masculino é eliminada. "Vou experimentar" Com a mudança, a embaixadora Ana Martinho relembra, em entrevista à ONU News, como tomou a decisão de se candidatar à carreira diplomática. RM - "Vou experimentar, é uma porta que se abre, vou ver o que é que é." Em agosto de 1975, integra um dos primeiros grupos de jovens adidos diplomáticos.

Estava a nascer uma nova geração dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros e, pela primeira vez, essa geração incluía mulheres.

Uma entrada sem resistência A chegada das primeiras mulheres à diplomacia acontece num momento de reorganização do país mas, do ponto de vista interno, a integração foi fácil, como recorda Ana Martinho. RM - "Fomos muito bem recebidas, eu fui muito bem recebida, acho que não houve qualquer resistência nesse sentido." Ainda assim, reconhece que a presença feminina introduziu diferenças na prática profissional. "As diferenças põem-se realmente na maneira como as mulheres fazem as coisas, que é uma maneira, uma forma de exercer, de viver, de exercer diplomacia que é um bocadinho diferente." Meio século depois, essa evolução é visível no topo da administração pública. RM - "As quatro diretoras-gerais do Ministério são mulheres." Uma carreira entre Lisboa e o mundo O percurso da embaixadora Ana Martinho atravessa várias geografias e inclui diversas funções bilaterais e multilaterais.

Começou em Lisboa, seguiu para Nova Iorque, Bruxelas, Viena, Praga e Paris.

Ana Martinho passou por cargos em diferentes níveis do serviço diplomático, incluindo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, Ocde, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, Osce, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Unesco e a representação de Portugal nas Nações Unidas. Em Lisboa, viria a atingir um marco histórico ao tornar-se secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a única mulher a ocupar o cargo em mais de 50 anos.

Carta da ONU "é sagrada" Na missão junto das Nações Unidas, consolidou uma visão muito própria do sistema internacional. RM - "Continuo a ser uma multilateralista e acho que o multilateralismo realmente é a forma de resolver problemas que a todos dizem respeito." A diplomata fala sobre a ONU e a Carta das Nações Unidas como "alguma coisa sagrada" mas reconhece também o contexto atual. RM - "Há de facto, neste momento, uma polarização em que as Nações Unidas têm dificuldade em encontrar-se, mas não é isso que deve fazer as Nações Unidas desistir, porque essa polarização vai acabar através de esforços positivos." ONU News/ Sara de Melo Rocha Assembleia da República em Lisboa, Portugal.

Diplomacia portuguesa constrói pontes Ao olhar para a evolução da política externa portuguesa nas últimas décadas, Ana Martinho destaca o papel que Portugal tem desempenhado nos fóruns internacionais. Em entrevista à ONU News, a embaixadora defende que o país beneficiou de uma característica que o distinguiu de muitas outras diplomacias. RM - "A função de Portugal naquele quadro multilateral foi sempre positiva por Portugal não ter, no fundo, uma agenda de poder." Essa posição permitiu a Portugal assumir frequentemente um papel de mediador, facilitador de consensos e "um construtor de pontes".

Mulheres e o futuro da diplomacia Mais de 50 anos depois de ter integrado uma das primeiras vagas de mulheres na diplomacia portuguesa, Ana Martinho olha para a evolução da carreira com naturalidade. A presença feminina em cargos de liderança, que era exceção quando entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, faz hoje parte da realidade. "Metade da população do mundo são mulheres", lembra. Às jovens que ponderam seguir uma carreira diplomática, deixa uma mensagem simples: RM - "Entrem e façam o melhor que sabem e sejam vocês próprias." Ana Martinho continua a olhar para o futuro com a mesma curiosidade que a levou a candidatar-se à diplomacia em 1975, um percurso que acompanha a transformação da profissão em Portugal e que ajuda a contar a história de uma mudança que começou com a abertura de uma porta e se traduziu numa presença cada vez mais forte das mulheres na representação do país.

Leia na íntegra aqui a entrevista da ONU News com a embaixadora Ana Martinho. * Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa . ♦ Receba atualizações diretamente no seu email - Assine aqui a newsletter da ONU News ♦ Baixe o aplicativo/aplicação para - iOS ou Android ♦ Siga-nos no Twitter !

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