Uma curiosidade racional e marcadamente masculina permeia a nova biblioteca privada de David Walsh, o excêntrico fundador do Museu de Arte Antiga e Nova (Mona), em Hobart, na Tasmânia, Austrália. O espaço impressiona visualmente, mas levanta questões sobre sua funcionalidade real como acervo acessível, segundo análise publicada pela The Conversation.

Um acervo que abandona o sistema tradicional

Walsh optou por abandonar o Sistema Dewey de classificação — método decimal adotado pela maioria das bibliotecas públicas do mundo — em favor de uma organização digital. A mudança traz surpresas e desafios para quem espera navegar pelo acervo de forma convencional, de acordo com a publicação.

O Sistema Dewey, criado em 1876, organiza obras por áreas do conhecimento em categorias numéricas. Substituí-lo por uma lógica digital representa uma ruptura significativa com a tradição biblioteconômica, ainda que reflita uma visão pessoal e idiossincrática do colecionador.

Estética versus acesso

A biblioteca de Walsh é descrita como espetacular do ponto de vista arquitetônico e estético. No entanto, a The Conversation questiona se o espaço cumpre a função primária de uma biblioteca: permitir que usuários localizem, acessem e utilizem o conhecimento armazenado de maneira eficiente.

A tensão entre forma e função é um debate recorrente em projetos culturais de grande ambição visual. No caso do Mona, instituição já conhecida por provocar e subverter expectativas, a biblioteca parece seguir a mesma filosofia do museu — priorizando a experiência e o impacto sobre a praticidade.

O Mona e seu criador

O Museu de Arte Antiga e Nova é financiado por Walsh, um matemático e apostador profissional que construiu fortuna no mercado de apostas esportivas. O Mona é considerado um dos museus privados mais ousados do mundo, frequentemente associado a obras provocativas e experiências imersivas.

A nova biblioteca integra esse universo particular, carregando a marca pessoal de seu criador — incluindo o que a The Conversation descreve como uma curiosidade "racional e masculina" que orienta a curadoria do acervo. A escolha dos títulos e a forma de organização refletem o olhar individual de Walsh mais do que critérios universais de acesso público.

Se a biblioteca funciona plenamente como tal, ou se é antes uma extensão da coleção artística do Mona, permanece uma questão em aberto — e possivelmente intencional.


Este artigo foi originalmente publicado pela The Conversation sob licença CC BY-NC-ND (Creative Commons — attribution, non-commercial, no derivatives). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro. A licença original exige que qualquer uso mantenha a atribuição e proíba usos comerciais.