No Brasil, os ataques a pessoas trans e não-binárias aumentaram acentuadamente desde 2019, quando uma crise moral nacional politicamente motivada começou a direcionar a identidade de gênero como tema de campanha. O que antes era em grande parte um tabu social se tornou uma ferramenta central de mobilização política para a direita radical.
Em 2019, o então Deputado Eduardo Bolsonaro declarou publicamente que "nem um cachorro ficaria com uma pessoa trans", ajudando a legitimar a retórica anti-trans nos mais altos níveis do governo. A declaração foi amplamente compartilhada nas redes sociais e se tornou um modelo para a mensagem política subsequente.
De 2019 a 2022, os incidentes anti-trans triplicaram no Brasil, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). O padrão seguiu um ritmo eleitoral claro: picos na retórica política correspondiam a picos de violência.
A campanha de 2022 e a武器ização da identidade
A campanha presidencial de 2022 weaponizou ainda mais a identidade trans. Materiais de campanha associavam explicitamente identidade de gênero a "ideologia de gênero" — um termo guarda-chuva usado pela direita para descrever direitos LGBTQ+, educação sexual abrangente e teoria de gênero de forma ampla. Campanhas nas redes sociais miraram professores, administradores escolares e profissionais de saúde.
Após as eleições de outubro de 2022, a retórica anti-trans continuou a dominar o discurso político, com iniciativas legislativas estaduais buscando restringir mudanças de registro de gênero, proibir cuidados de afirmação de gênero para menores e limitar a visibilidade LGBTQ+ nas escolas.
Impacto na sociedade
Pesquisadores da Universidade Federal do ABC documentaram um aumento de 40% nos relatos de discriminação em escolas, locais de trabalho e espaços públicos após discursos políticos importantes sobre identidade de gênero. Profissionais de saúde relataram aumentos em ansiedade, depressão e tentativas de suicídio entre pacientes trans.
O Brasil agora ocupa posição entre os países com as maiores taxas de assassinato de pessoas trans no mundo. A ANTRA documentou 131 assassinatos de pessoas trans em 2022 sozinho — um número amplamente considerado uma subestimação devido à subnotificação.
A weaponização política da identidade trans também afetou governos municipais. Várias cidades aprovaram ordenanças restringindo o acesso a banheiros, limitando a participação esportiva e exigindo notificação parental para estudantes que expressem questões sobre identidade de gênero nas escolas.
O padrão é claro
"Atores políticos criam estruturas de permissão para a violência", disse uma ativista de direitos trans em São Paulo. "Quando líderes dizem que pessoas trans são ameaças a crianças e famílias, as pessoas se sentem empoderadas para agir com base nesses medos."
Organizações internacionais de direitos humanos fizeram um chamado ao governo brasileiro para tomar medidas para proteger pessoas trans e não-binárias da violência politicamente motivada. Até agora, nenhuma legislação federal foi aprovada para abordar o problema.
Este artigo foi originalmente publicado pela Global Voices sob licença CC-BY (Creative Commons — atribuição exigida). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro.