Manchester, no noroeste da Inglaterra, vive uma transformação que vai além da renovação urbana. Segundo análise publicada pela The Conversation, a cidade construiu uma identidade política própria — o chamado "Manchesterismo" — a partir de sua herança cultural e musical, e essa identidade hoje molda o exercício do poder regional.

Da música à política

A cidade que revelou bandas como The Smiths, Oasis e Joy Division passou décadas exportando uma atitude de independência e orgulho local. Esse espírito, segundo a The Conversation, não ficou restrito aos palcos. Ele permeou a forma como líderes políticos locais passaram a se posicionar diante de Londres e do governo central britânico.

Andy Burnham, prefeito-executivo do Grande Manchester desde 2017, é o exemplo mais visível desse fenômeno. Ex-ministro do governo trabalhista, Burnham adotou um estilo de governança que combina pragmatismo de esquerda com um discurso de autonomia regional — algo que ressoa diretamente com a identidade cultural da cidade.

Uma relação de mão dupla

A The Conversation destaca que a relação entre cultura e política em Manchester nunca foi unilateral. À medida que a cidade se reinventa como polo cultural de reconhecimento internacional, a política de Burnham também evolui. A cultura alimenta a legitimidade política; a política, por sua vez, investe na projeção cultural da cidade.

Esse ciclo tem implicações práticas. Manchester tem buscado maior descentralização administrativa no Reino Unido, num processo conhecido como "devolution" — a transferência de competências do governo central para regiões e municípios. O Grande Manchester é frequentemente citado como modelo desse processo.

Contexto para o leitor brasileiro

Para o público brasileiro, a dinâmica lembra, em certos aspectos, o debate sobre federalismo e autonomia dos estados frente ao governo federal — embora os sistemas políticos sejam distintos. Em ambos os casos, identidades regionais fortes são usadas como argumento para maior autonomia na gestão de recursos e políticas públicas.

Manchester, com cerca de 2,8 milhões de habitantes na região metropolitana, é a segunda maior conurbação urbana da Inglaterra. Sua reinvenção econômica e cultural após o declínio industrial do século XX é estudada internacionalmente como caso de revitalização urbana bem-sucedida.

Segundo a The Conversation, o "Manchesterismo" não é apenas nostalgia musical — é uma gramática política em construção, que usa o passado cultural da cidade como combustível para disputas muito concretas de poder no presente.


Este artigo foi originalmente publicado pela The Conversation sob licença CC BY-NC-ND (Creative Commons — attribution, non-commercial, no derivatives). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro. A licença original exige que qualquer uso mantenha a atribuição e proíba usos comerciais.