Nascido das palavras da poeta e ativista Susana Chávez Castillo e alimentado pela indignação coletiva, o movimento Ni Una Menos transformou o debate público sobre violência de gênero na América Latina — mas ainda não conseguiu mudar a realidade enfrentada pelas mulheres na região, segundo reportagem da Global Voices.
As origens do movimento
A frase "Ni Una Menos" — em português, "Nem Uma a Menos" — foi cunhada por Susana Chávez Castillo, poetisa mexicana que protestava contra os feminicídios em Ciudad Juárez, cidade fronteiriça no norte do México que se tornou símbolo da violência contra mulheres nas décadas de 1990 e 2000. Chávez Castillo foi ela própria assassinada em 2011, tornando-se mais um nome na lista que denunciava.
A expressão ganhou força como grito de mobilização coletiva e se espalhou pelo continente. Em 2015, o movimento tomou as ruas da Argentina em marchas de grande escala, impulsionado por casos de feminicídio que chocaram a opinião pública. A partir daí, o Ni Una Menos cruzou fronteiras e se consolidou como um dos principais movimentos feministas da América Latina contemporânea.
Debate público versus realidade cotidiana
De acordo com a Global Voices, o movimento foi bem-sucedido em colocar o feminicídio e a violência de gênero no centro do debate político e midiático da região. Manifestações de massa, campanhas nas redes sociais e pressão sobre legisladores resultaram em avanços legais em diversos países, incluindo a tipificação do feminicídio como crime específico em várias legislações nacionais.
No entanto, os dados continuam alarmantes. A América Latina segue sendo uma das regiões mais perigosas do mundo para as mulheres, com altas taxas de feminicídio registradas em países como México, Brasil, Honduras e El Salvador. A distância entre o avanço do discurso público e a persistência da violência cotidiana é apontada como um dos principais desafios do movimento.
Um legado em construção
Para analistas e ativistas ouvidos pela Global Voices, o Ni Una Menos representa uma virada cultural inegável: tornou visível o que antes era tratado como assunto privado ou estatística invisível. Ao mesmo tempo, o movimento enfrenta o desafio de se traduzir em políticas públicas efetivas e em mudanças estruturais que protejam as mulheres de forma concreta.
O legado de Susana Chávez Castillo, segundo a publicação, permanece vivo tanto como símbolo de resistência quanto como lembrança de que o custo da luta pelos direitos das mulheres pode ser, ele próprio, a vida.
Este artigo foi originalmente publicado pela Global Voices sob licença CC-BY (Creative Commons — atribuição exigida). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro.