No Bangladesh que emergiu após o levante popular de 2024, ativistas LGBTQI+ enfrentam uma convergência de ameaças: uma classe política hostil, o colapso do financiamento internacional e um Estado que, segundo a Global Voices, participa ativamente da violência contra essa população.

Isolamento político e retrocesso institucional

Com a queda do governo de Sheikh Hasina e a ascensão de uma administração interina liderada pelo economista Muhammad Yunus, esperava-se uma abertura democrática. Para a comunidade LGBTQI+, no entanto, o cenário se deteriorou. Grupos conservadores e religiosos ganharam espaço político, e pautas de direitos sexuais e de gênero passaram a ser tratadas como ameaças à ordem social — não como demandas legítimas de cidadania.

A homossexualidade permanece criminalizada no Bangladesh sob o artigo 377 do Código Penal, herança do período colonial britânico. Ativistas relatam aumento de perseguições, prisões arbitrárias e violência policial contra pessoas LGBTQI+, sem perspectiva de reforma legal no horizonte próximo.

Crise de financiamento internacional

A situação é agravada pelo recuo de doadores internacionais. Organizações que historicamente financiavam o trabalho de defesa de direitos humanos no país reduziram ou suspenderam repasses, em parte por pressão política e em parte por uma reorientação global de prioridades de ajuda externa. Para grupos LGBTQI+ bangladeshis — já operando na marginalidade legal —, a perda de recursos representa, na prática, o fim de projetos de saúde, documentação de violações e suporte jurídico.

Segundo a Global Voices, essa combinação de hostilidade estatal e escassez de recursos cria um ambiente em que o próprio ato de se organizar se torna perigoso.

Resistência em meio à adversidade

Apesar do contexto adverso, ativistas seguem atuando — muitas vezes de forma clandestina ou sob identidades protegidas. Redes de apoio mútuo, comunicação cifrada e solidariedade regional com grupos do Sul e Sudeste Asiático surgem como estratégias de sobrevivência do movimento.

O momento, conforme aponta a Global Voices, levanta questões estruturais sobre como movimentos de direitos humanos podem se sustentar quando o Estado é parte do problema e os aliados internacionais recuam. Para o ativismo LGBTQI+ no Bangladesh, o desafio não é apenas político — é de existência.


Este artigo foi originalmente publicado pela Global Voices sob licença CC-BY (Creative Commons — atribuição exigida). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro.