Uma narrativa crescente em países africanos retrata agendas anti-LGBTQ+ como uma forma de resistência ao colonialismo ocidental. É o que revela análise publicada pela Global Voices, organização internacional de jornalismo cidadão.

Segundo a Global Voices, o argumento central dessa narrativa é o de que a defesa dos direitos LGBTQ+ seria uma imposição cultural do Ocidente — e que, portanto, resistir a essas pautas equivaleria a defender a soberania e a identidade africanas.

Colonialismo como argumento

A lógica utilizada por defensores dessa posição inverte o debate histórico: se o colonialismo europeu impôs valores e estruturas às sociedades africanas, a rejeição de direitos LGBTQ+ seria, nessa leitura, um ato de autodeterminação cultural.

Esse enquadramento tem ganhado espaço em discursos políticos e religiosos em diferentes países do continente, segundo a Global Voices. A narrativa permite que líderes apresentem legislações restritivas não como violações de direitos humanos, mas como afirmações de identidade nacional.

Contexto regional

Nos últimos anos, países como Uganda, Gana e Nigéria aprovaram ou debateram leis que criminalizam ou restringem severamente a identidade e as relações LGBTQ+. Em Uganda, uma lei aprovada em 2023 chegou a prever pena de morte em determinadas circunstâncias, gerando condenação internacional.

Organizações de direitos humanos argumentam que a homossexualidade existia em diversas culturas africanas antes da colonização europeia — e que, historicamente, foram os colonizadores quem introduziram leis criminalizando práticas homossexuais no continente.

Disputa de narrativas

A Global Voices aponta que o uso do discurso anticolonial por movimentos anti-LGBTQ+ representa uma disputa simbólica relevante: ao ocupar o vocabulário da resistência, esses grupos dificultam o diálogo sobre direitos e tornam mais complexa a atuação de ativistas locais.

Para pesquisadores e organizações da sociedade civil africana, o desafio é desconstruir essa narrativa sem reforçar estereótipos sobre o continente ou alimentar a percepção de que a defesa de direitos LGBTQ+ é, de fato, uma agenda externa.


Este artigo foi originalmente publicado pela Global Voices sob licença CC-BY (Creative Commons — atribuição exigida). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro.