Todo dia, em salas de aula ao redor do mundo, professores pedem aos alunos que "visualizem", "imaginem" ou "criem uma imagem mental" de determinado conceito. Para a maioria, a instrução parece natural. Para uma parcela significativa dos estudantes, porém, ela é simplesmente impossível de cumprir.
Segundo a The Conversation, pesquisadores têm investigado um fenômeno chamado afantasia — a incapacidade de formar imagens visuais voluntárias na mente. Pessoas com essa condição não conseguem "ver" com os olhos da mente, mesmo quando tentam ativamente. O oposto, a hiperfantasia, descreve quem experimenta imagens mentais extremamente vívidas.
O que é afantasia e como ela afeta os estudantes
A afantasia não é um distúrbio raro. Estimativas sugerem que entre 1% e 4% da população pode ter algum grau dessa condição, embora muitos nunca tenham recebido qualquer diagnóstico ou sequer saibam que existem diferenças individuais tão marcantes na capacidade de visualização mental.
O problema, de acordo com o artigo publicado pela The Conversation, é que o sistema educacional frequentemente pressupõe que todos os alunos compartilham a mesma experiência visual interna. Estratégias pedagógicas baseadas em visualização — como pedir que um estudante "imagine estar dentro de uma cena histórica" ou "visualize a estrutura de uma molécula" — podem excluir involuntariamente aqueles que não têm essa capacidade.
Implicações para o ensino
Para estudantes com afantasia, instruções como "feche os olhos e visualize" podem gerar confusão, ansiedade ou a sensação de que estão fazendo algo errado — quando, na verdade, seu cérebro simplesmente processa a informação de outra forma. Muitos relatam ter passado anos achando que as descrições de "imagens mentais" eram apenas figuras de linguagem, sem perceber que outras pessoas realmente "veem" algo.
Especialistas citados pela The Conversation defendem que educadores precisam diversificar suas abordagens. Isso significa oferecer alternativas concretas à visualização, como descrições verbais detalhadas, diagramas físicos ou outras formas de representação que não dependam da capacidade de gerar imagens internas.
A discussão ganha relevância especialmente no Brasil, onde debates sobre inclusão e diversidade de aprendizado têm avançado nas políticas educacionais. Reconhecer que diferenças cognitivas vão além de diagnósticos tradicionais — como dislexia ou TDAH — é um passo importante para tornar o ensino mais acessível a todos os perfis de estudantes.
Este artigo foi originalmente publicado pela The Conversation sob licença CC BY-NC-ND (Creative Commons — attribution, non-commercial, no derivatives). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro. A licença original exige que qualquer uso mantenha a atribuição e proíba usos comerciais.