Pequenos impactos repetidos na cabeça — que não chegam a causar concussão — podem ser tão prejudiciais ao cérebro quanto os traumas mais graves. É o que indica uma crescente preocupação científica sobre os esportes de contato, segundo artigo publicado pela The Conversation.

A discussão ganha força especialmente na Austrália, onde modalidades como futebol australiano, rugby e críquete expõem atletas a centenas de colisões por temporada. Autoridades esportivas e de saúde enfrentam pressão para ampliar as medidas de proteção aos jogadores.

O perigo invisível dos impactos subconvulsivos

Os chamados impactos subconvussivos — golpes que não causam sintomas imediatos perceptíveis — têm sido associados a alterações neurológicas de longo prazo. Ao longo de uma carreira esportiva, o acúmulo dessas pancadas pode levar a danos cerebrais progressivos, mesmo sem que o atleta jamais tenha recebido um diagnóstico formal de concussão.

Pesquisadores apontam que o cérebro não precisa sofrer um trauma único e severo para ser afetado de forma permanente. A repetição constante de impactos menores pode desencadear processos inflamatórios e degenerativos no tecido cerebral, segundo a The Conversation.

Encefalopatia traumática crônica no centro do debate

A condição mais temida nesse contexto é a encefalopatia traumática crônica (ETC), doença neurodegenerativa associada à exposição prolongada a traumas cranianos. Identificada post-mortem em ex-atletas de esportes de contato, a ETC está ligada a sintomas como perda de memória, depressão, comportamento impulsivo e demência.

O debate sobre a ETC ganhou visibilidade global após casos documentados em ex-jogadores da NFL, liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos. Na Austrália, casos semelhantes entre ex-atletas de futebol australiano intensificaram o apelo por mudanças nas regras e nos protocolos médicos das competições.

Pressão por mais regulação

Especialistas defendem que as autoridades esportivas precisam ir além dos protocolos atuais de concussão e passar a monitorar também a carga acumulada de impactos subconvussivos sofridos pelos atletas. Isso exigiria tecnologia de rastreamento, mudanças nas regras de contato e maior transparência das ligas sobre os riscos envolvidos.

A crise de danos cerebrais de longo prazo nos esportes de contato australianos pode estar se aprofundando, e há consenso entre pesquisadores de que as medidas atuais são insuficientes para proteger os jogadores, de acordo com a The Conversation.


Este artigo foi originalmente publicado pela The Conversation sob licença CC BY-NC-ND (Creative Commons — attribution, non-commercial, no derivatives). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro. A licença original exige que qualquer uso mantenha a atribuição e proíba usos comerciais.