No passado, empresas abriam capital na bolsa cedo para ter acesso a recursos e crescer. Hoje, as companhias que se preparam para um IPO já chegam ao mercado cheias de dinheiro, captado antes por meio de financiamento privado. É o que aponta análise publicada pela The Conversation.
O novo modelo do mercado de capitais
A mudança no comportamento das grandes empresas de tecnologia revela uma transformação estrutural no mercado financeiro. Companhias como a SpaceX, de Elon Musk, conseguem levantar volumes bilionários de capital privado antes mesmo de abrir o capital ao público — o que altera profundamente quem se beneficia do crescimento mais expressivo dessas empresas.
No modelo tradicional, o IPO (Oferta Pública Inicial, na sigla em inglês) era o momento em que uma empresa dava o salto de valor mais significativo. Investidores que compravam ações logo após a abertura de capital podiam capturar grande parte desse crescimento. Hoje, esse salto tende a ocorrer muito antes, nas rodadas de investimento privado.
Quem fica com os maiores retornos
Segundo a análise da The Conversation, insiders — como fundadores, executivos e investidores institucionais com acesso às rodadas privadas — têm muito mais chances de obter retornos expressivos do que o investidor comum que compra ações após o IPO. Isso porque o valor da empresa já foi amplamente precificado antes de chegar à bolsa.
No caso da SpaceX, o IPO recorde de US$ 75 bilhões ilustra bem essa dinâmica. A empresa já havia passado por múltiplas rodadas de captação privada, nas quais investidores selecionados entraram a valuations muito menores. Para o investidor de varejo que compra no IPO ou depois dele, o potencial de valorização tende a ser proporcionalmente menor.
O que muda para o investidor comum
Essa tendência levanta questões sobre equidade no mercado de capitais. O acesso às fases mais lucrativas do crescimento de uma empresa ficou cada vez mais restrito a um grupo seleto de investidores institucionais e pessoas com conexões no setor.
Para o investidor brasileiro — e global — que opera em bolsa, o recado é de cautela: em grandes IPOs de empresas já consolidadas, boa parte do potencial de valorização pode já ter sido capturado por quem entrou muito antes da abertura ao público.
Este artigo foi originalmente publicado pela The Conversation sob licença CC BY-NC-ND (Creative Commons — attribution, non-commercial, no derivatives). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro. A licença original exige que qualquer uso mantenha a atribuição e proíba usos comerciais.