A discussão sobre o uso de dispositivos eletrônicos em sala de aula ganhou novo fôlego após o estado de Victoria, na Austrália, propor a adoção de períodos diários sem telas nas escolas de ensino médio. A medida reacende o debate sobre qual é o equilíbrio ideal entre tecnologia e aprendizado presencial.
Segundo a The Conversation, a pesquisa científica indica que não existe um "número mágico" de tempo de tela capaz de garantir uma aprendizagem de qualidade. O que realmente importa, de acordo com os estudos, é como a tecnologia é utilizada e para qual finalidade.
O que dizem as pesquisas
Especialistas consultados pela The Conversation apontam que o impacto dos dispositivos digitais no aprendizado varia amplamente conforme o contexto. O uso ativo — como pesquisa orientada, produção de textos ou resolução de problemas — tende a produzir resultados diferentes do uso passivo, como consumo de vídeos ou redes sociais durante o horário escolar.
A qualidade da mediação do professor também é apontada como fator determinante. Quando o educador integra a tecnologia de forma intencional ao plano de aula, os resultados tendem a ser mais positivos do que quando o dispositivo é usado sem direcionamento pedagógico claro.
Contexto australiano e relevância global
A proposta do governo de Victoria prevê que estudantes do ensino médio tenham ao menos um período diário completamente livre de dispositivos eletrônicos. A iniciativa se soma a um movimento mais amplo em diversos países — incluindo França e Reino Unido — que já adotaram restrições ao uso de celulares em escolas públicas.
No Brasil, a discussão também avança. Em 2024, o Congresso Nacional aprovou legislação restringindo o uso de celulares nas escolas de educação básica, sinalizando uma tendência global de revisão das políticas de tecnologia no ambiente escolar.
Sem resposta simples
A conclusão dos pesquisadores, conforme relatado pela The Conversation, é que políticas eficazes precisam ir além de proibições genéricas ou liberações irrestritivas. O foco deve estar no desenvolvimento de diretrizes pedagógicas claras, na formação de professores e na avaliação contínua dos resultados de aprendizagem.
Períodos sem telas podem ter valor — especialmente para favorecer a concentração e a interação social —, mas não substituem uma estratégia educacional mais ampla sobre o papel da tecnologia no ensino.
Este artigo foi originalmente publicado pela The Conversation sob licença CC BY-NC-ND (Creative Commons — attribution, non-commercial, no derivatives). O Jornal Atlas traduziu e adaptou o conteúdo para o público brasileiro. A licença original exige que qualquer uso mantenha a atribuição e proíba usos comerciais.